vivendo e não blogando
Sei que demoro pra escrever, mas tenho vivido muito, e blogando pouco.
Mas tenho coisas interessantes pra contar. A primeira delas é em relação ao trabalho. Eu vi uma audiência em que o sujeito foi cobrar coisa de cento e sessenta reais de um serviço que não foi prestado para ele. No Sofazão. Pois bem, o sujeito não vai ver o dinheiro de volta, até porque é objeto ilícito, mas não foi isso que me impressionou. O juíz leigo que presidiu a instrução do feito no JEC estava me falando que sente pena do sujeito. Isso porque o cara ganha o dinheiro dele de forma honesta, vai atrás de uma puta, e se vê sem o fruto do trabalho e o fruto dentre as pernas daquela que deveria ter fornecido. Sabe, eu até entendo que exista uma grande parte do mundo do qual eu não faça parte, e que neste mundo, o autor da ação tenha toda a razão. O que me espnta é que o meu ponto de vista não é aceito.
Ora, no meu ponto de vista – idealista, eu bem sei – se existem normas, estas devem ser cumpridas. Conheço a realidade do lugar onde vivo, e sei que quebramos normas todo o santo dia. Mas é no mínimo necessário que alguém as cumpra. Saca, o meu ponto nisto tudo é que, embora o mundo seja imperfeito, eu preciso agir como se não fosse. Todo aquele lance do meu comportamento ser o modelo para todo o comportamento. Levo isso a sério. Não sou um santo, e nem exijo isso dos outros. Mas, agindo como acho que seja a forma correta, abro caminho para que façam da mesma forma. Se nos definimos a partir das relações com as alteridades, que a definição que a alteridade tenha de mim seja uma pelo menos clara. Supondo que todo o mundo seja relacional, e que os conceitos que eu formo advenham também das impressões do agir do outro, posso supor que o outro funcione da mesma forma. Assim, se o agir dele é definido a partir do meu agir, e isso numa espiral ascendente hermenêutica, que a base, ou o comportamento mais basal possível seja um claro e coeso. E pá.
Por outro lado, estava eu batendo papo com o fabs, e ele me disse que estava numa seca criativa, porque estava estudando. Pois eu sugeri que ele falasse dos cantos. Canto é aquele lugar onde ângulos se encontram. Tu tens ângulos na casa, no quarto, na rua, e na vida. E cantos em todos estes lugares. O canto, pra mim, é sempre um ponto de definição. As coisas, ali começam e acabam. É como se o alfa e o ômega, juntinhos e de mão dadas estivessem no mesmo lugar, mas não no mesmo espaço. É, como eu tinha dito ali em cima, uma questão de relação. Num quarto, um canto, em sentido estrito, é onde as paredes se encontram, Num sentido amplo, é aquele ponto onde tu tens as coisas que a) não te importam mais (vou deixar ali no canto) b) que te importam muito (vou deixar ali no canto, para ninguém tocar) e c) um ponto sempre a ser modificado (tenho que fazer alguma coisa com aquele canto!). Pois bem, sendo que as paredes te tão os extremos da possibilidade, o canto é ponto focal do impossível. Ali, as possibilidades da forma são inquestionáveis. Se concebermos a vida para além do canto, e saírmos do espaço conceitual do quarto, tu estás nú ante o impossível. Da mesma forma que estamos nús embaixo das roupas, estamos expostos atrás das paredes, e o canto é a expressão máxima disso.
Não é livro de auto ajuda, bem antes pelo contrário. O fato é que, se pensarmos direitinho, o que nos separa do mundo de 1984 é aquela forma definida pelas paredes, e encapsulada pelo conceito de canto. É uma relação que se perfectibiliza na própria existência do não existir de uma relação (a de vigilância).
Aí, eu chego no meu terceiro ponto. Como bitch do NIN, eu não consigo não me impressionar da puta trilha sonora que é o Year Zero. Tenho um filme na minha cabeça, há alguns anos, em que o Brasil é tomado por um tipo de autocracia, liderada pelo exército. E o fato que desencadeou tudo isso, no meu filme, foi um ataque terrorista num avião. O avião que levava a Tati e o fabs para os Eua. Nesta visão do futuro, assustado com tudo isso, o alto comando brasileiro resolve tomar o controle da mixórdia que são as instituições brasileiras. Mas o filme tem dois lados. Ao mesmo tempo em que o pessoal que assume o controle são heróis (além de humanos, o herói clássico, investido de uma qualidade tal que os exalta do populacho), o populacho tem os seus. Humanos, medrosos, mesmo assim, com a necessidade de ser livre. O resto da trama, eu vou escrever num site, quando eu tiver tempo. O lance é que os dois lados tem razão. E isso me assusta. Como controlar 250 milhões e mesmo assim, dar algum tipo de vida decente? Existe maneira de nivelar por cima este contigente? É o que eu fico pensando.
Ah, e sexo. Neste ponto,
fabriciopontin said,
April 18, 2008 at 6:33 pm
Tá, mas e se o outro não tiver afim de te compreender? Como fica?
Sobre o canto, paredes, isolamento…
Eu fico pensando, será que este discurso de vigilância não presume um certo tipo de eficácia estatal que não existe na prática? Quer dizer, se estamos sendo vigiados, parece que ao mesmo tempo a gente não é de verdade controlada – não eficientemente, pelo visto.
Bom, tenho que sair aqui
Continuamos o papo depois.
Do teu amante,